Foi no final do ano passado, quando começamos a planejar as ações da área de comunidade, que surgiu a ideia de “falar bem de alguém pelas costas”. A provocação, naquele momento, era trocar os protocolos anti-bullying e os combinados de prevenção ao bullying de início do ano, pelo reforço de atitudes positivas. As atividades deveriam reforçar o comportamento positivo e incentivar os estudantes a olharem os colegas pelas qualidades positivas que os definem e não por aquelas características que geralmente levam à prática de bullying. Assim surgiu o tema dessa semana.
Para desenvolver uma cultura de empatia todo dia, a ideia é colocar o desenvolvimento de habilidades e atitudes no projeto pedagógico da escola, e não como ações pontuais; e isso significa pensar em estratégias pedagógicas e componentes curriculares que deem conta de cumprir com essa função.
Para dar suporte teórico ao desenvolvimento de habilidades e atitudes, fomos buscar os referências do CASEL (Collaborative for Academic, Social, and Emotional Learning) grupo interdisciplinar internacional, que propõe e compartilha uma série de formações, atividades e materiais voltados para o desenvolvimento da aprendizagem social e emocional. Seu propósito é que crianças e adolescentes possam aprender a expressar os seus sentimentos e emoções no ambiente escolar, identificando-o como um espaço de segurança e escuta ativa. Como resultado, há a melhora no ambiente escolar, a integração dos estudantes e melhoria do desempenho acadêmico.
Na Escola Mais, essa aprendizagem social e emocional acontece de forma integrada com a área de conhecimentos, em todos os ciclos escolares. Na Educação Infantil e Ensino Fundamental I, se dá através da consciência da organização dos materiais e espaços, para além da sala de aula, e da criação coletiva de combinados e regras para que esses combinados sejam internalizados, possibilitando um convívio coletivo mais harmonioso. Nesses ciclos também desenvolvemos relacionamentos interpessoais e a cooperação, favorecendo a socialização de alunos e a resolução de conflitos, através da escuta e do diálogo, promovendo o respeito às diferenças, sejam elas quais forem, e ao ambiente escolar. Na Educação Infantil e no Fundamental I, o momento da roda é aquele que propicia o desenvolvimento dessas habilidades sociais e verifica se os estudantes estão tendo atitudes positivas, que demonstrem esse conhecimento.
Oferecer espaços para conversas sobre sentimentos e limites pode e deve ser um esforço diário, além de funcionar como instrumento de prevenção.
É importante entender que combater o bullying não significa somente adotar medidas educativas que serão aplicadas quando ele acontece, mas antes de tudo, pensar em construir uma cultura de cuidado, empatia e respeito.
No Ensino Fundamental II, o desafio de desenvolver habilidades e atitudes está nas mãos dos mentores, que são professores dos outros componentes daquele ano de escolaridade e que têm duas aulas semanais para esse desenvolvimento.
As aulas de mentoria são adaptadas, a partir da convivência do professor mentor com a turma e da sua identificação com as necessidades daquele grupo de alunos, sempre orientado pelo objetivo de desenvolver competências fundamentais ao desenvolvimento pedagógico e socioemocional dos estudantes. De forma ampla e inter-relacionadas, CASEL propõe as seguintes áreas para a aprendizagem social e emocional: autoconhecimento, autorregulação, consciência social, habilidades de relacionamento e tomada de decisão responsável. A proposta é que os alunos desenvolvam todas essas habilidades ao longo de todo o Ensino Fundamental II, podendo, a sua organização, estar relacionada com as prioridades de cada turma. Na Escola Mais, a mentoria também compõe a nota, não como um componente específico, mas como uma nota global, que compõe todas as outras notas.
E esse desenvolvimento não se restringe às aulas de mentoria; para que as atitudes possam ser avaliadas, elas devem estar presentes em todos os momentos da rotina do aluno, desde a forma como se comporta com os colegas e professores, até suas atitudes nos espaços compartilhados da escola, mostrando cuidado e respeito, com pessoas e propriedade.
O mais recente desafio do professor mentor é acompanhar o desempenho acadêmico dos estudantes, mostrando a sua relação com o desenvolvimento de boas atitudes perante toda a comunidade escolar.
No Ensino Médio, o foco no desenvolvimento de habilidades e atitudes converge para o Projeto de Vida do estudante. O professor mentor atua como um facilitador nesse processo, indo além do suporte acadêmico para oferecer uma orientação de carreira estratégica. Mais do que preparar para o mercado, esse mentor promove uma visão crítica e humana das relações sociais, estimulando a formação de cidadãos autônomos. Ao capacitar o aluno para questionar a realidade e analisar contextos sociais complexos, o professor fortalece a base do protocolo anti-bullying, pois o pensamento crítico permite que o jovem reconheça a desumanização do outro e rejeite a violência sistêmica em favor de uma convivência ética.